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Os cinco pilares da nova reforma católica

Rádio Advento | 3:15 AM |

Na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, escrita pelo papa Paulo VI, em 1975, e direcionada ao episcopado, ao clero e aos fieis de toda a Igreja, há uma chamada à reação: “Façam chegar ao homem a mensagem cristã por todos os meios que estejam ao seu alcance.” Escrita um ano após a Renovação Católica Carismática (RCC) ter passado por mudanças estruturais e de nomenclatura (os carismáticos eram conhecidos como “católicos pentecostais”), a Evangelii Nuntiandi surge em reação a uma crise institucional que começava a se fazer sentir na Igreja. No documento, os meios de comunicação e a religiosidade popular são citados como elementos a serem trabalhados, em uma estratégia de difusão do catolicismo em áreas de domínio protestante, ortodoxo, islâmico e, ao mesmo tempo, de consolidação das áreas de influência do Vaticano, a exemplo da América Latina, regiões dispersas na África e na Ásia, nas Filipinas.

Evangelii Nuntiandi surge em decorrência do Concílio Vaticano II (1962-1965), em uma reafirmação da necessidade de uma liturgia mais participativa e da ampliação do diálogo ecumênico. Com a exortação apostólica, o papa Paulo VI também chama a atenção para a responsabilidade do trabalho evangelístico-missionário. Três anos depois, a eleição de Karol Wojtyla deu início a uma nova fase na história da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Pela primeira vez, em 460 anos, um papa não italiano assumia o domínio mundial da ICAR. Uma vez no Poder, Wojtyla passou a colocar em prática aspetos do Vaticano II e da Evangelii Nuntiandi. Por trás de sua eleição também havia uma manobra política e estratégica: é estabelecido um contrapeso ao domínio exercido pela União Soviética na Europa Oriental e da influência desta em alguns setores da Igreja, que, na América Latina, deu origem à Teologia da Libertação (TL). O ateísmo soviético e o temor de que a Igreja Ortodoxa encontrasse espaço no regime para expandir seu domínio, pesou na escolha do polonês Karol Wojtyla.

Posteriormente, com a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), João Paulo II abriu caminho para a implantação de novas dioceses em territórios de maioria ortodoxa, levando a uma reprimenda por parte do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa (IOR). Em um comunicado publicado em julho de 2002, a IOR comentou a decisão do papa João Paulo II, de criar a diocese de Odessa e Simferopol, para cobertura da região sul da Ucrânia. “A Igreja Ortodoxa Russa, respeitando a necessidade dos católicos ucranianos de acompanhamento pelos seus pastores, não se manifestou contra a criação de dioceses por Roma em regiões por eles historicamente habitadas. Porém, as cátedras episcopais recentemente criadas surgem em regiões onde o número de católicos é bastante insignificante [...] Isso são provas da intenção firme do Vaticano de seguir a política de expansão missionária, inaceitável para os ortodoxos.”

O desdobramento da eleição de Wojtyla serve-nos de exemplo de como o Vaticano se articula no sentido de ampliar sua presença (e influência) em locais estratégicos. Há uma orientação política que passa pela escolha de um novo pontífice, até a beatificação e canonização de “santos”. Cada passo da Igreja é cuidadosamente estudado e tem como base dados estatísticos, influências ou adversidades locais que podem colocar em risco seus interesses. Se a eleição de Wojtyla serviu como uma espécie de contenção da URSS e da influência ortodoxa na Europa Oriental, a escolha do atual papa Francisco também foi baseada em interesses locais, estratégicos. Com a diminuição de católicos na Europa e Estados Unidos, e, mesmo com o crescimento da igreja evangélica na América do Sul (como no Brasil), a Santa Sé optou por fortalecer sua zona de influência na América Latina, a partir de um papa conservador em alguns aspectos, mas liberal em outros, como na defesa de um ministério simples, sem luxúria, na ampliação do diálogo ecumênico e na abertura da Igreja para os pobres e sofredores.

A vinda do papa Francisco ao Brasil (a primeira viagem internacional do novo pontífice) também ocorre com base em uma estratégia romana de fortalecimento de sua área de influência na América Latina, para usá-la como ponta de lança para a remodelação mundial da Igreja. O crescimento do movimento evangélico brasileiro é um dos motivos, mas não o único. A porção latina do continente americano ainda é a parte mais dinâmica do mundo para o Catolicismo Romano, respondendo por 40% do número total de católicos existentes no mundo, contra os 10% de protestantes (2/3 dos quais de orientação pentecostal). A origem latina de Francisco e sua primeira viagem ao Brasil passam uma clara mensagem de que a Igreja pretende se consolidar na região, com o intuito de lançar um projeto de fortalecimento global, universal. De forma semelhante, João Paulo II iniciou sua caminhada internacional a partir da República Dominicana e do México, em um período em que a TL surgia como uma ameaça à influência da Igreja, tendo Leonardo Boff com um dos expoentes – João Paulo II considerava a TL uma aliada do comunismo, segundo destacou a agência de notícias Reuters, em 2005.

Foi a partir do papa João Paulo II, pois, que a Igreja colocou em prática cinco principais estratégias com o objetivo de se fortalecer e conter o crescimento de outros grupos religiosos considerados (internamente) ameaças a sua hegemonia, as quais são: fortalecer a presença da ICAR entre os jovens, levando, assim, ao despertamento de novas lideranças eclesiásticas; fortalecer e ampliar o ecumenismo com o intuito de absorção do protestantismo; fortalecer e ampliar a presença da ICAR em meios de comunicação de massa; beatificar e canonizar novos santos como representantes identificadores de seus países; e desenvolver uma linguagem semelhante à usada por igrejas evangélicas, tornando sua mensagem (e liturgia) mais atraente e participativa. Com o papa Francisco, as estratégias da ICAR alcançam novos patamares de conquistas.

Jornada Mundial da Juventude

Organizada em 1984, pelo papa João Paulo II, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi criada com vistas a envolver a juventude nas atividades da Igreja, uma vez que esta possuía um aspecto arcaico, ultrapassado, resumido a um grupo de fieis da terceira idade. Atualmente, com o déficit de padres no Brasil e no mundo, a JMJ também funciona como um chamariz para a atração de novos seminaristas. O interesse pela América Latina também é uma constante na JMJ, uma vez que a segunda edição foi realizada em Buenos Aires, Argentina, três anos depois de seu lançamento, em Roma.

Ecumenismo

Começando pelo papa João XXIII que, em 1961, convocou o Concílio Vaticano II, o Ecumenismo passou a ser uma ambição e estratégia da Santa Sé, que teve maior repercussão com João Paulo II, Bento XVI e, hoje, com Francisco. A canonização de João XXIII e João Paulo II revela o interesse da Igreja de absorção do protestantismo e de outros grupos católicos cismáticos a partir do ecumenismo. No Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CNIC), fundado em 1984, em Porto Alegre, e que é composto pela Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Episcopal Anglicana e Metodista, representa parte do esforço da ICAR na absorção, ou, pelo menos, no tornar os protestantes simpáticos à Igreja Católica.

Meios de comunicação

A exortação apostólica Evangelii Nuntiandi foi um marco no sentido de que expôs o interesse da Cúria Romana no engajamento da liderança nos meios de comunicação. Embora ainda não usados pelas igrejas neopentecostais brasileiras, os meios de comunicação passariam a ser uma de suas principais bases de atração de novos fieis, tendo a Igreja Universal do Reino de Deus e Internacional da Graça de Deus como as primeiras a recorrer aos recursos audiovisuais. É somente a partir da década de 1980 que a ICAR também passaria a investir nos recursos, começando pela Canção Nova. Em 1994 é fundada a Rede Católica de Rádio (RCR), uma associação de emissoras vinculadas a organismos da Igreja. Atualmente a ICAR conta com 97 rádios, três geradoras e 13 tevês.

Canonização

Não somente a escolha de novos pontífices, mas também a beatificação e a canonização de santos segue uma orientação política. O vaticanista Ettore Masina exemplifica: “Quando o papa vai visitar um país onde nunca esteve, ou que ainda não tem um santo, a congregação agiliza o processo de um nome local”. Um dos casos mais escandalosos foi a “canonização extremamente rápida do fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá de Balaquer, que morreu em 1975, foi beatificado em 1991 e canonizado onze anos depois, por João Paulo II”, lembra Ettore. O aumento do número de beatificações e canonizações feitas a partir de 1978 também é motivo de críticas – em apenas 26 anos de pontificado, João Paulo II beatificou 1.345 religiosos e reconheceu 483 santos, contra os 296 santos e 808 beatos levados à condição nos últimos 390 anos, a contar de 1588 quando foi criada a Congregação da Causa dos Santos (CCS), antes chamada de Ritos, e que é responsável pelo processo de identificação e reconhecimento.

Linguagem

Apoiada na Renovação Católica Carismática, a ICAR passou a utilizar uma linguagem mais próxima à utilizada por igrejas evangélicas, dando ênfase a orações, a evangelismos, ao Evangelho. A vinda do papa Francisco ao Brasil é apresentada como uma viagem “missionária”, um meio pelo o qual a Igreja se propõe a alcançar antigos e novos seguidores, fortalecer fracos e oprimidos. A liturgia também deve seguir a mesma orientação, ou seja, participativa, despojada, envolvente, alegre. A juventude é um dos principais alvos da nova campanha católica, além de tornar a absorção do protestantismo mais eficiente e rápida, via assimilação. A adaptação religiosa é um processo irreversível, mesmo que mantida a característica original da Igreja Católica.

(Johnny Bernardo, Napec)
Via Criacionismo

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