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O Significado do Delírio ? Parte 1

Rádio Advento | 2:30 AM |

Delírio é uma alteração do conteúdo do pensamento. Veja mais explicações na primeira parte da série de três artigos.

Psicose é o nome técnico para loucura. Na mente de uma pessoa com psicose há o que chamamos de delírio. Esta palavra vem do latim delirare que significa "fora do sulco", sendo sulco aqui aquilo que é feito quando se usa o arado no campo. Quando uma pessoa delira, portanto, ela está fora do sulco, ou seja, fora do curso normal do pensar considerado equilibrado.
Ao estudarmos o pensamento humano do ponto de vista médico-psiquiátrico analisamos o RITMO do pensamento (acelerado ou lento), a FORMA (estruturada ou desestruturada) e o CONTEÚDO (baseado na realidade ou imaginário). Delírio é uma alteração do CONTEÚDO do pensamento. É uma convicção pessoal, privativa, uma transformação na consciência global da realidade. A existência dele indica que a formatação do pensamento seguiu rumos incompatíveis com as regras psicológicas mais comuns, com um juízo errado devido a uma causa doentia.
Os delírios se caracterizam por serem inabaláveis, irredutíveis, certeza subjetiva extraordinária, impermeabilidade diante de argumentações lógicas e da experiência, inverdade do conteúdo, não influenciados pela vontade da pessoa. Doenças mentais graves, como a esquizofrenia, um episódio grave da desordem bipolar, outras psicoses, produzem delírio.
Karl Jaspers divide as idéias delirantes em PRIMÁRIAS e SECUNDÁRIAS. As primárias são incompreensíveis psicologicamente e mórbidas na sua estrutura. Já as secundárias são psicologicamente compreensíveis, surgem de vivências, afetos ou derivam de outros sintomas, mantendo as características doentias sendo absurdos.
Exemplos de delírios: ?Há alguém que está colocando veneno na minha comida. E sei que atrás daquela porta, lá na rua há muitos carros com bandidos para me perseguirem e matar. Sei que o Presidente da República está por detrás de tudo isto. Assim como os parentes meus que moram longe. Vizinhos também.? ?Aquela flor no jarro está curvada e murcha porque minha vida não vale nada. As forças do mal curvaram aquela flor e eles estão ali para me curvarem também. Estão dentro do armário me vigiando.?
Um bebê já nasce com um mundo mental diferente de outros. O jeito de pegar no seio ou não pegar, os tipos de choro, a intensidade da agitação, irritabilidade ou serenidade, presença de sorrisos ou não, etc. Hereditária e geneticamente o ser humano trás para a vida uma ?bagagenzinha? de saúde ou não. O que cada criança fará com esta bagagem mental herdada é o que faz a diferença, no confronto com o mundo externo, sobre como será desenvolvida a mente dela. E mesmo gêmeos reagem de forma diferente devido à característica pessoal. Para lidar com os desafios do mundo externo algumas irão mudar enquanto outras irão fugir (para dentro de si).
Quando nos defrontamos com uma dor, com algo que nos desagrada, podemos sair de perto porque longe do estímulo desaparece a dor. Mas se é impossível abandonar geograficamente o local, ou quando levamos dentro de nós mesmos a situação de perigo ou dor, temos que recorrer a alguma outra estratégia diante do sofrimento. Podemos nos retirar um tanto (muito ou pouco) da realidade para preservar nossa permanência na mesma e sobreviver ali naquele ambiente do qual não podemos fugir. Um bebê ou uma criança em sofrimento emocional na sua relação familiar não pode dizer: ?Vou embora de casa e assumir minha vida sozinho!?, não é? Então, ele ?resolve? reagindo mentalmente, construtivamente ou não. Tendo prejuízo mental grave ou não.
Portanto, nossa percepção da existência, a lente com que vemos o mundo exterior e mesmo o interior, pode estar ?machucada?, fora de foco, distorcida, por causa do tipo de defesa que usamos para agüentar a dor e tentar vencê-la.
Uma pessoa pode tentar cortar a experiência da dor emocional tentando controlar o incontrolável, fingir que não existe o problema (negação), julgar-se senhor da situação, torcer a percepção da realidade, até que a explosão da verdade surja. A doença aparece.
A outra opção, sem ser fugir, é enfrentar, agüentar um tanto a dor (geralmente ligada a frustração), não anestesiá-la com uma substância (álcool, outras drogas) ou atitude (sexo, compras, viagens, etc.). Enfim, examinar a situação objetivamente e procurar soluções construtivas baseadas na realidade. Para isto temos que usar o pensamento e ele precisará estar com o ritmo, a forma, e conteúdo saudáveis, coerentes, verdadeiros, flexíveis para absorver novas verdades e percepções realistas que possam surgir.
A maneira como desenvolvemos nossa própria forma de pensar tem que ver com um conjunto de coisas, desde as influências herdadas dos pais, passando pelas informações que adquirimos na vida familiar, nos meios de comunicação, na influência cultural do tipo de sociedade onde vivemos, dos estudos que adquirimos, e também através das experiências e da maneira como passamos por elas. Uns são mais rígidos, outros mais flexíveis. Diante da mesma dor e do mesmo desafio uns dizem: ?Vamos adiante!?, enquanto que outros dizem: ?Não vai dar certo!?.
Então, entendemos que os processos mentais têm que ver com os pensamentos mas também com os sentimentos ou as emoções. E a verdade é que não conseguimos lidar com todas as emoções dolorosas de maneira realista, enfrentando-as sem nenhuma defesa, sem dar uma ?fugidinha?. Neste sentido, todos somos um tanto delirantes, porque às vezes sujeitamos nosso pensamento diante da dor na renúncia do pensar consciente.
No próximo artigo seguiremos nesta análise do delírio.

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