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Olha para mim, professora!

Rádio Advento | 5:38 AM |


Sabe… eu sou aquela criança que senta num cantinho qualquer da aula, de roupinhas velhas, rostinho feio e sem graça, cabelos sem brilho e quase não fala.
Sabe… eu sou aquela criança, que nunca teve uma merenda gostosa para poder lhe dar um pedacinho; aquela criança que não lhe dá desenhos bonitos porque só tem lápis preto para colorir.
Sabe… eu sou aquela criança que nunca ganhou um colinho do papai, que nunca ganhou ovinho da páscoa a não ser os que a senhora me dá.
Sabe… eu sou aquela criança que muitas vezes traz o tema mal feito, porque a mesa lá de casa é um caixote de madeira que sacode todo quando a gente escreve; aquela criança que a senhora nem nota, que nunca chega perto porque não tem cheirinho de perfume.
Sou aquela criança, que a senhora reclama sempre que não é como as outras; aquela que lhe traz com carinho uma florzinha murcha, que a senhora finge que gosta, mas que acaba esquecendo sempre sobre a mesa.
Sou, enfim, professora, aquela criança que gostaria de ser como as outras, mas que não é; que gostaria de receber um sorriso mas que não recebe; que gostaria de receber um “parabéns”; que gostaria de lhe dar flores bem lindas para que a senhora se orgulhasse de mim.
Mas, mesmo assim, eu lhe peço: aceite-me como eu sou; goste de mim como a senhora gosta dos outros; preste atenção em mim; não me vire as cosas; acredite em mim.
Porque eu amo a senhora. Porque eu queria ser importante para a senhora. Porque eu sou aquela criança feinha e sem graça, que senta num cantinho qualquer da sala que se a senhora tiver um tempinho para prestar atenção em mim, verá em meus olhos sem brilho, um brilho de esperança, na espera de uma chance para poder lhe dizer: Olhe para mim, professora, preciso de você.
(Antonista Pepe Nekcmura)

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